De que lado você está?

              

Eu já morei na fronteira e percorri alguns quilômetros dos 15.737km que dividem o nosso Brasil dos outros países. E toda vez que eu passava de um lado para outro eu ficava pensando: porque aqui? Onde tá a linha que separa um do outro?

 

Em alguns pontos a linha ficava clara com as águas de um rio que servia de divisa. O meu rio Quaraí é um desses marcos e a ponte internacional da Concórdia leva brasileiros e uruguaios de um lado para o outro.

 

Em Santana do Livramento não tem rio, montanha, lago nem nada que sirva para dividir quem torce pro Peñarol e Nacional ou para Grêmio e Inter. São nesses lugares que eu fico mais encafifado.

 

Alguns centímetros pra lá e tem alguém que votou no Mujica. Alguns centímetros pra cá e tem alguém defendendo mitos. Todos separados por um obelisco, uma bandeira e a dúvida entre Suárez e Neymar.

 

Mas quem dera os nossos problemas de fronteiras fossem só esses. O extremo Sul do país hoje é uma fronteira nutella que recheia os alfajores uruguaios e argentinos.

 

Na briga lá embaixo, hoje, só rola sangue das carnes na disputa pelo melhor churrasco. É briga boa onde quem sofre é boi e ovelha. Ser humano disputa de boca cheia.

 

O problema é quando a barriga esvazia.

 

Pacaraima também é de fronteira. Só que lá, no meio da Floresta Amazônica a fronteira é raiz. Diferente do Uruguai, a Venezuela não jogou a Copa, não tem craque no Barcelona e nem frango na prateleira.

 

Lá em cima o buraco é mais embaixo. Ironicamente o padroeiro da cidade é São Francisco de Assis, protetor dos animais. E tem uma espécie que anda precisando de muita proteção em Pacaraima.

 

O ser humano brasileiro, em uma crise de identidade adolescente, resolveu usar métodos medievais para acabar com um problema contemporâneo. Expulsou no grito, ferro e fogo, bruxos e malfeitores venezuelanos de todas as idades.

 

Sérgio propôs o homem cordial na formação do Brasil e o filho Chico cantou para todos que o pai era paulista, o avô pernambucano, o bisavô mineiro, e pelo Brasil ele ia andando e migrando. Como um imigrante.

 

O brasileiro é cordial. Mas é também seletivo.

 

É só olhar para história e reparar: recebemos famílias inteiras de italianos e alemães no sul do país com pedaços de terra onde o trabalho era fonte de renda e de comida farta. Até hoje, o agronegócio é uma das locomotivas da nossa economia e as famílias têm nome e sobrenome gringo. Enquanto isso, alguns séculos antes, separamos de suas famílias o imigrante africano que recebeu um bilhete para uma viagem sem volta. No pacote tinha muita algema, correntes, chibatadas, pouca comida, muito trabalho e nenhum lucro. Até hoje vemos as cicatrizes desse povo escravizado em cima dos morros.

 

O medo da população de Pacaraima é compreensível e também tem um contexto histórico. Se os povos nativos tivessem essa experiência antes, com certeza teriam expulsado um povo imigrante assim que os primeiros navios chegaram por aqui.

 

Mas eles não expulsaram. E mesmo após muitas lutas pela sobrevivência foram praticamente exterminados. Os que não morreram foram colonizados, catequizados e destroçados.

 

E dessa mistura foi surgindo um povo ironicamente seletivo. Que vibra quando famílias são expulsas de nossas terras, mas que esquece do vizinho quando quer ouvir música alta. Que acha um absurdo separar crianças de seus pais na fronteira mexicana, mas vibra quando crianças voltam assustadas para o lugar do qual não gostariam de ter saído.

 

O medo é compreensível. Mas medo não se combate com terror.

 

Existe uma linha tênue que separa os dois. Existe uma linha tênue que separa os países. Por apenas alguns metros, quem hoje está do lado brasileiro comemorando por expulsar, não está do lado venezuelano assustado por ser expulso.

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