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Rua Oscavo Gonzaga Prata, 270.

August 2, 2018

21°45'51.01"S, 43°21'1.01"W

 

               

No meio do caminho tinha uma cidade.

Tinha uma cidade no meio do caminho.

 

Tá... eu sei que esse não é um jeito muito criativo de começar um texto. Mas a verdade é que Juiz de Fora entrou na minha vida de um jeito meio estranho e deixou tudo meio confuso.

 

Quer saber por quê? Vem comigo que no meio do texto eu vou te explicando.

 

Juiz de Fora fica exatamente no meio do caminho entre a possante Conselheiro Lafaiete e o pacífico Rio de Janeiro. Coincidentemente as duas cidades onde eu tenho família. E foi por isso que meus pais escolheram a cidade para fixar residência no fim do último milênio.

 

Eu me considero um sujeito de muita sorte por isso. Imagina se a família da minha mãe fosse de San Diego e a do meu pai do Rio. Eu iria morar na Nicarágua! Ou se a família do meu pai fosse de Santiago e da minha mãe de Montevidéu, eu ia acabar em alguma cidade argentina.

 

Ainda bem que foi Juiz de Fora. E foi a Juiz de Fora raiz, do final da década de 90. Com seus ônibus de cores bem definidas para cada bairro. Com dignidade!

 

Pobre geração que vai para o Teixeiras de ônibus vermelho. Ou que vai para o Alameda embarcado em um ônibus azul.

 

Amigo... no meu tempo Cascatinha e Aeroporto eram verdes. Cerâmica? Branco.Santa Luzia, laranja; Rio Branco era amarelo e Benfica, azul.

 

E já que chegamos em Benfica, deixa eu apertar o sinal aqui porque nós vamos descer.

 

Seja bem-vindo ao Colégio Militar de Juiz de Fora. Eu não sei em qual dia da semana você está lendo isso, mas imagine que hoje é sábado.

 

Com certeza o aluno 851.039, Leonardo Baptista, está em uma das salas de aula na Atividade de Estudo em Caráter Disciplinar. Acho que era isso que eu ouvia durante a leitura do aditamento.

 

- Aditamento?

 

É bem simples. Imagina todas as turmas do seu colégio em fila, formando um quadrado. No centro, um microfone onde um dos alunos vai ler todos os avisos da semana. Basicamente quem foi punido e quem vai ser elogiado.

 

O texto era basicamente esse: “ Aditamento ao boletim interno número três, sete, dois. Aluno oito, cinco, um, zero, trinta e nove, Leonardo Baptista. Fato observado negativamente por atrapalhar a aula de literatura da professora tal. Fica em Atividade de Estudo em Caráter Disciplinar nos dias tal, tal e tal.”

 

Entenda tal, tal e tal por sexta, sábado e domingo.

 

Infelizmente não tenho nenhum exemplo de texto referente a elogios com o meu nome.

 

Sabe a história de que cadeia não recupera ninguém e serve apenas como uma universidade do crime? Se tem uma coisa que eu aprendi no CM é que isso é verdade.

 

Foi nesses fins de semana perdidos, que achei as amizades que tenho até hoje na vida. Além de alguns conhecidos nos grupos de Whatsapp.

 

No CMJF construí muita coisa boa e estou levando muito tempo para desconstruir todo o resto.

 

Passei por lá aos trancos e barrancos. Ou melhor, não passei. Fiquei pelo caminho e caí no mundão dos civis-sem-futuro-dos-cursinhos-particulares.

 

E junto com os cursinhos descobri também o AeroPub. Uma boate/danceteria/balada/inferninho ou qualquer outro nome daquele local que você vai sem se importar com a música toca. Só vai e pronto. No automático.

 

Descobri também o German Village. O mais perigoso do German era a fila. Você esperava para entrar bem em frente aos acessos que a galera usava para entrar e sair. Em uma das festas, um garotão chegou mais cedo e queimou a largada no open bar. Sem pensar duas vezes, saiu correndo para não vomitar na frente da galera que estava na festa e acabou vomitando na galera que iria entrar.

 

ABCR é o avô das quintanejas atuais.Só que de universitário, o sertanejo praticado ali não tinha nada. Era só profissional formado, com anos de mercado e muita pós-graduação na vida.

 

O Arriba era um restaurante mexicano com cara de boate, em frente a um shopping com cara de galeria. Se você fosse para o restaurante sentia saudades da pista de dança. Se estava na pista de dança, lembrava com saudades do restaurante. A única coisa definitiva foi o fim.

 

Tinha um forrozinho na Santo Antônio que era muito bom para quem não sabia dançar. Como era em uma antiga loja, o espaço era minúsculo e enchia rápido. Assim, não sobrava espaço para passos mais espalhafatosos. Sempre fui mais clássico.

 

A Privi era cara.

 

No Vila das Tochas, toda noite eu saio a sua procura, toda noite eu faço a mesma loucura, porque a minha fantasia era te ter um dia! Só não esperava assim, tão de repente! Afinal, você sabe que ter duas paixões não tem jeito, só tendo dois corações no meu peito, mas eu só tenho um e eu te quero só pra mim, como as ondas são do mar, não dá pra viver assim, querer sem poder te tocar. Então deixa acontecer naturalmente, nosso cas...

 

Tá bom, tá bom, parei! Vamos ligar o rádio.

 

- Qual estação?

 

100,1. Por favor.

 

Foram uns 3 anos no departamento de promoção e comercial da Rádio que patrocinava a Festa Country e o JF Folia. Muito maneiro. Muito trabalho.

 

Toda Festa Country acontece no frio. Pode ser dezembro em Realengo, que se rolar uma Festa Country de Juiz de Fora edição Bangu, vai nevar na cadeia! Só não dá ideia porque vai ter detento querendo organizar uma Olimpíada de Inverno.

 

Tenho certeza absoluta que toda vez que a novela das nove começa, você sente saudade de vestir aquele abadá e ir para o estacionamento do estádio dar umas voltas atrás do trio. Se a Festa Country era na beira do rio, o JF Folia beirava o caos.

 

Se a Festa Country era de casaco e luva, o JF Folia era abadá e só.

 

Se a Festa Country era O Rappa, o JF Folia era Jammil.

 

Mas o melhor de Juiz de Fora, era não ter que escolher um ou outro. Você podia querer os dois. Podia gostar dos dois. Melhor parar por aqui antes que esse papo pare lá no Muzik.

 

Juiz de Fora não foi só festa. Saí da Rádio Cidade para trabalhar na República e entrar de vez no mercado publicitário e na carreira que insisto, persisto e invisto até hoje.

 

Cheguei na agência para trabalhar na produção e desde o primeiro dia comecei a montar um cenário ideal e migrar para criação. Dei sorte. Deu certo! Fui até o final da faculdade trabalhando como redator e aprendendo muito nas salas de aula e na porradaria do mercado.

 

- Faculdade?

 

Estácio de Sá! Turma 1001 Utilidades. A primeira turma de Publicidade e Propaganda da faculdade. #respeitaminhahistoria

 

E a turma era pesada! Começou integrada com o jornalismo e com aulas aos sábados. No segundo período estudei só com os futuros publicitários.

 

No último, os heróis da resistência eram bem menos que a metade do exército que começou.

 

Acabamos de fazer 10 anos de formados e fizemos o que toda a humanidade faz para comemorar uma data importante, reencontrar velhos amigos, colocar o papo em dia e passar vídeo do Bolsonaro lacrando algum jornalista/comunista/maconheiro: um grupo no whatsapp.

 

Um grupo clássico. Começou com um monte de gente que não se gostava, falando que estava com saudades. Depois rolou uma briga que culminou na saída daquele amigo, que precisava mostrar como era moderno e antenado.

E agora, está lá, parado e perdido.

 

A tecnologia tem dessas superficialidades. Mas bola pra frente e boa sorte para quem estudou.

 

- Tá zoando?

 

Tô não! Mas já estou indo embora. Só preciso terminar de falar de JF.

A cidade que minha família escolheu para ficar e que me deu uma nova família. A cidade que essa minha nova família sempre volta para matar a saudade de quem a gente ama e quando quer se sentir em casa de verdade.

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