A Cidade de Mandiba

March 21, 2018

 

-33° 55' 33 S 18º 25' 23L

 

Passagem barata e vontade de fugir do Brasil no Carnaval.Pronto, foi assim que conheci um pedacinho da África. Mais precisamente a Cidade do Cabo, uma das cidades mais ricas de um dos países mais ricos do continente mais explorado da nossa galáxia.

 

É fácil sentir-se em casa na Cidade do Cabo quando você mora no Rio. A cidade tem a mesma mistura de montanha e mar, rico e pobre, futuro e passado, tristeza e alegria que nós temos do lado de cá do Atlântico.

 

Nós e eles.

 

Em comum a desigualdade social provocadas por motivos diferentes, causadas pelo mesmo agente. Aquele tal povo que vive acima da linha do Equador e colonizou tudo o que consideravam abaixo deles. Seja na geografia ou na linha evolutiva.

 

O apartheid lá foi/é bem mais explícito e suas cicatrizes aparecem em diferentes formas. A Robben Island, abrigo de Mandiba por 23 anos, é uma dessas marcas. Para chegar até lá, são 30 minutos em uma barca com o mar mexido. Mas não são as ondas que vão te deixar com o estômago embrulhado.

 

São as histórias vividas na terra firme da ilha que dão náuseas.

 

Outra cicatriz aberta na cidade é a vastidão de um bairro removido da zona branca. Hoje, os lotes vazios ocupam o imaginário de todos os turistas e moradores para que nunca se esqueçam do que aconteceu ali. Uma tristeza a céu aberto, uma ferida exposta.

 

Piedade não é uma boa palavra para a África. Por isso os prêmios Nobel de Paz da África do Sul tenham tanto valor. Tanto quanto a natureza. Que também tem seu lado cruel por lá.

 

The Doctor é um vento de até 100km/h, que contorna o Cabo da Boa Esperança e invade a Cidade do Cabo. Uma ventania que afundou muito navio e hoje derruba os planos de um fim de semana.

 

Aliás, vento lá tem de sobra e quase sempre, vem trazendo o nevoeiro. Por isso, o passeio na Table Mountain deve ser feito logo na primeira oportunidade. Pra quem gosta de trilha e caminhada, a subida a pé é não é um programa para iniciantes.

 

Lá de cima a vista é linda. Foi um dos poucos lugares que eu pensei: “caraca é lindo! Quase igual ao Rio!”.

 

E a partir daqui esse texto desce a Table Mountain e chega onde eu queria estar desde o começo. Até agora tudo o que falei sobre a Cidade do Cabo foi uma introdução para dizer o que aprendi por lá! Tragédias não se comparam.

 

Sabe por quê? Porque ao fazer isso você banaliza uma.

 

Eu não ia escrever sobre a Marielle. Comecei o texto dando uma volta no oceano para não ter que escrever sobre ela e entendi que na verdade quero escrever sobre vocês.

 

Vocês que compararam mortes! Como se um não ligasse para a morte do outro e com isso banalizaram todas!

 

Você pode detestar a esquerda e o seu “mimimi”. Particularmente, acho que você poderia canalizar essa energia para detestar outras coisas. Mas a morte de Marielle não foi um produto da nossa violência urbana alimentada por políticas antiquadas e desastrosas.

 

Foi um crime para calar a voz de alguém que falava tão alto, que só o barulho de um tiro poderia abafar. E abafou.

 

O problema é que no silêncio do luto, você começou com suas pós-verdades. Você trouxe o seu ódio para os meus grupos de whatsapp e reproduziu mensagens sem checar a fonte.

 

Mas eu estou checando.

 

E cada vez que você mente ao repassar uma mensagem, eu descubro mais uma verdade sobre essa mulher, negra e favelada.

 

Eu não estou aqui para defender a Marielle, até porque, pelo que me consta ela nunca precisou disso. Era ela quem defendia!

 

De tanto defender, morreu indefesa. E justamente agora que alguém tirou o futuro de Marielle, você quer sujar o seu passado?

 

Você quer levar mais tristeza e sofrimento para a filha, mãe, pai, irmã e sobrinha?

 

Isso também é uma morte. E já que você gosta de comparar é a que mais deveria doer. Pois é o fim da sua piedade. Se bem que, assim como na Cidade do Cabo, piedade não é uma coisa que combina muito com a gente.

 

Por isso, mais do que nunca, devemos entender de uma vez por todas que tragédias não se comparam.

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