Rua Benjamin Constant, 437

February 22, 2018

Latitude 20.6639° Sul,  Longitude 43.7850° Oeste

 

 

Conselheiro Lafaiete é uma cidade mineira que fica a mais de 300 quilômetros, 5 horas e 2 Dramins do Rio. Todo fim de ano era o meu destino para as férias, Natal e Ano Novo.

 

E todo esse percurso era feito sob uma verdadeira lavagem cerebral para trocar o extenso vocabulário do Méier, por um reduzido dicionário politicamente correto de Minas.

 

Logo nos primeiros quilômetros, caralho virava caraca. Porra, era putz. E puta que o pariu, putz isgrila. A idade era pouca, mas a língua...

 

Dá pra imaginar o meu susto quando vi, um dia, meu avô chamar dois jovens que passavam na rua de vagabundo e fé das unha? Mas isso é assunto para daqui a pouco.

 

Lafaiete é a famosa cidade do diferente, das férias, do “vou brincar de que hoje?”, do “vamos passear onde, tia?”. De saber que aquele bicho estranho chama galinha e bota ovo. De descobrir que alface, couve, cebolinha e mais um monte de coisa que você não gosta de comer, não vem do supermercado!

 

Em Lafaiete, ninguém é só João, Maria ou José. Lá, todo mundo tem mais do que nome e sobrenome, e não é difícil que alguém cite toda a sua árvore genealógica e os negócios da sua família para apresentar você a um desconhecido.

 

Quer um exemplo?

 

- Oi, fulano, você conhece o Léo, da Sãozinha, da Enésia, do Dé, que mexia com o Supermercado Brasil, que tem o Carlos e o Loirinho, que mexem com ração?

- Não.

- Claro que conhece, sô! O Léo, sobrinho da Rita, casada com Arnould, que tem aquele fusca branco.

- Ah...

- Lembrou?

-Do fusquinha do Arnould, sim!

 

Uma apresentação em Lafaiete só termina quando o desconhecido encontra algum grau de intimidade com você. Por isso, é tão fácil fazer amizades por lá!

 

Um lugar onde a pessoa não tem emprego. Ela mexe com alguma coisa. Os meus primos mexem com petshop e quadra de futebol. Uma tia minha, por mais chique que a loja dela seja, simplesmente mexe com sapato. E uma outra tia mexia com banco.

 

Não interessa se você é dono ou apenas funcionário. Um tio já teve uma franquia do Correios. Então, ele mexe com cartas. Não interessava se era o carteiro ou o pombo.

 

Sempre tive curiosidade para saber como um lafaietense definiria um padre. Seria alguém que mexe com Deus? Se a Anitta tivesse a sorte de nascer na cidade, seria mais fácil. “Aquela garota, que mexe com a bunda...”

 

Chegou a hora de mexer no baú.

 

E vou começar a fazer a ponte com o passado, cruzando o viaduto que passa por cima da linha do trem, do Rio Bananeiras, do estacionamento do Supermercado Brasil e do camelódromo mais democrático do país, onde você podia encontrar as melhores fitas de Super Nintendo.

 

Um viaduto em curva só para você avistar o outdoor da loja 104 tecidos, onde cada número tinha uma personalidade com bigode, chapéu, cabelo e cartola. Eu acho que tenho 104 motivos para esquecer esse outdoor, mas já desisti e aceitei que vou levar essa imagem até meus 104 anos.

 

Lafaiete tem bar, boteco, choperia, restaurante, botequim e toda e qualquer variação de lugar que venda bebidas. Menção honrosa para o Zé da Égua! Não pelas cachaças que nunca bebi ali, mas pela inspiração para o meu primeiro nickname nas redes sociais. #Mirc #sdds

 

Hoje, os pubs tomam conta da cidade. Aqui a menção honrosa vai para a Garrafaria Botequim. Não pela carta de vinhos que nunca li, mas pela família que sempre me leva de volta a Lafaiete.

 

Confesso que gostaria de ter mais tempo para frequentar os bares e pubs da cidade, só para conhecer as personalidades lafaietenses com seus causos.

 

Porque se tem uma coisa que não falta em Lafa é gente interessante e história boa para contar.

 

Tem maluco que se interna sozinho no hospício. Mas antes, tira as rodas do carro para não correr o risco de ser assaltado. De bobo esse louco não tem nada.

 

Tem padre que torce pro Cruzeiro e zoa o adversário antes da comunhão, mas perdoa quando o atleticano dá o troco na penitência seguinte. Tudo na Santa paz de Cristo.

 

Tem dono de funerária que tinha um sítio perto da estrada. Quando um ônibus saiu da via e foi parar nas terras do empreendedor fúnebre, ele anunciou: ninguém mexe nos corpos! Quem planta, colhe. Nenhum cliente levantou para reclamar.

 

 

 

Meus avós moravam em uma casa grande na rua Benjamin Constant. Bem pertinho do Clube da Lua e por onde passava o Bloco da Geralda, com seus bonecos gigantes no Carnaval.

 

De um lado tinha o misterioso Sr. Orozimbo, cuja a casa era alvo das bolas que passavam por cima do balanço, transformado em gol, no quintal da minha vó. Do outro, tinha a casa da Dona Leda com seus bichos. Eram inúmeros casais, de inúmeras espécies e com inúmeros nomes. Se a casa flutuasse, seria uma Arca de Noé. Como era fixa e com quintal enorme, talvez tenha sido o zoológico mais completo de Lafaiete.

 

Mas o som mais estranho que saia da casa da Leda era de um bicho muito conhecido da família. Todos os dias tínhamos um “pocket shower show”, do hoje renomado Fred Santos. Todos os clássicos de Renato Russo faziam parte do repertório do iniciante músico. Aqui vale a menção honrosa para as Bandas Rock Santeiro e Carpiah. Não só pelo rock raiz, mas pela inveja que sinto por não saber tocar nem campainha.

 

Logo após a casa da Dona Leda, tinha a casa da Nica e foi lá que avistei pela primeira vez um Husky Siberiano. E foi lá, que também nasceu a ideia de ter um. O resultado vocês já sabem, né? Se não sabem, fica a dica de ler o texto que fala sobre Quaraí. Se não quiser saber, tudo bem. Vamos ficar aqui por Lafaiete mesmo.

 

Uma cidade que tem muitas histórias dos outros, mas eu queria falar das minhas. Na verdade, nas histórias do meu avô. Ou melhor, do Dé.

 

Era O Avô. Capaz de comprar um sítio só pra reunir todo mundo e fazer um campinho só pra agradar os netos. E ai da gente, se não deixasse a Amanda e a Nathália jogar.

 

Mas por via das dúvidas, o parquinho e a casinha de boneca estavam embaixo da mangueira gigante, que deixavam o Sítio do Dé com mais sombra, mais cheiros e mais sabores.

 

 

 

Quando eu disse fazer um campinho, eu falo em transformar um barranco em campo de futebol na enxada. Tudo bem que eu, meu irmão e primos ajudamos muito.

 

E foi numa tarde de trabalho duro, que dois jovens passaram a cavalo na estrada e gritaram para quem trabalhava no sítio: - Trabalha condenado! Todos pararam para ver quem era e antes do meu “vai tomar no...” ouvimos incrédulos um “anda à toa vagabundo, fédazunha!”.

 

Sim, o Dé gritou. O Dé gritou e falou palavrão. O Dé gritou, falou palavrão e brigou com alguém. Como foi bom conhecer esse lado do Dé e assim, ter mais um lado para amar desse melhor avô do mundo .

 

No campinho do Dé passamos dias inteiros jogando bola, e passou um gigante que jogou bola no mundo inteiro. Por um daqueles casos, que só acontecem em Lafaiete, o goleiro Dida virou amigo da família e se viu obrigado a agarrar um pênalti do Careca, o melhor batedor de falta da cidade nos anos 50. Menção honrosa para a Quadra Royal, pelos golaços que já fiz e por substituir tão bem o campinho do Dé.

 

O Dida pegou o pênalti e hoje, o Careca deve lembrar desse lance toda vez que encontra o Dé lá em cima. Por falar em céu, não podemos esquecer das pipas, ou melhor das raias.

 

Quanto mais alto elas iam, mais perto chegamos das outras crianças do bairro. O Sítio do Dé era um paraíso tão fértil que brotava amizade de onde a gente menos esperava. O Quétichupite é só um desses exemplos. Acho que nunca descobri o nome dele de verdade, só que o moleque era fanático pelo molho de tomate. Pena que seu inglês não era muito fluente e o apelido foi consequência direta da sua pronúncia.

 

 

 

Tinha dia que a gente não ia pro sítio, aí sobrava para as tias. Haja parquinho de madeira no Parque de Exposições e de ferro na Casa Matos. Piscina e futebol no Carijós e mais piscina e futebol no Clube Bellavinha. Quando chovia, fitas alugadas após horas de escolhas na locadora e tour pelo trabalho dos tios.

 

Era uma verdadeira feira das profissões que ia desde loja de utensílios domésticos até uma do Correios, passando por lojas de ração, banco, oficina mecânica, varejão e até o posto de saúde.

 

Outros lugares também eram muito frequentados. No aeroporto Bandeirinhas o voo mais aguardado era do frango direto para a panela, junto com seu molho pardo. Quando nenhum adulto roía a corda e desistia da missão, o Cupim era uma aventura com a sua fazendinha e seus gansos traiçoeiros. Eu não sei se vocês sabem, mas em Lafaiete o Flamengo tem estádio!

 

Entre um lugar e outro, a passadinha em uma das pastelarias da cidade era obrigatória! Inclusive, da última vez que estive por lá, percebi uma significativa substituição desses estabelecimentos por lojas com produtos de nutrição esportiva. Coitada da nova geração de atletas lafaietenses, que vão trocar a leveza de um pastel de vento e a sustância de uma coxinha, por albumina, BCAA e whey protein.

 

 

 

Hoje, a vida me leva muito pouco a Lafaiete. Mas ainda dá tempo de contar algumas histórias, como da vez que ao chegar na casa da minha vó fui recebido por todos os santos da igreja, que fixaram residência por ali enquanto o Santo lar era reformado. O susto foi tão grande que não deu tempo de lembrar do caraca nem do putz.

 

Conselheiro Lafaiete acabou ficando mais longe, acho que o tempo tem a capacidade de afastar coisas que nunca saíram do lugar. Mas não é raro encontrar um lafaietense perdido pelo mundo, cheio de orgulho da cidade.

 

Mesmo prazer que eu sinto quando algum amigo da agência me chama de Lafaiete, mais curioso pelo nome da cidade do que a sua história. E eu olho, feliz da vida, por tudo que eu vivi nesse lugar.

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