Rua Adriano, 102. Apto 206.

July 7, 2017

Latitude -22.8990541  Longitude -43.2883682

 

Eu já morei em Chamonix. Na verdade, foi no Chamonix. E a verdade, verdade mesmo, foi o primeiro lugar da minha vida que eu chamei de casa. Mas lá no meu Chamonix, ninguém falava francês. Quer dizer... Quando falávamos no nome do bairro, talvez.

 

O meu Chamonix fica no Méier! Para ser mais preciso, fica em um lugar neutro entre o Méier, Todos os Santos, Lins e Engenho de Dentro. Como não temos um Mont Blanc para marcar território, não bobeamos para definir o Méier como bairro.

 

Quem é do Méier não bobeia, não azara baranga e não pega mocréia. Assim, a única certeza de quem mora no Méier é que vai pegar o 679-GROTÃO para chegar a qualquer lugar do mundo. Seja no Norte Shopping, no Salgado Filho, em Paris ou Mont Blanc.

 

 

Trem também era uma opção para se chegar longe quando você saía do Chamonix. Mas tinha que ficar esperto, a estação é a de Engenho de Dentro e você já sabe, se não dançar agora, só em Realengo. Então entra na dança e vem comigo!

 

Estamos na Rua Adriano, uma rua que termina justamente na linha do trem. Ou seja, uma rua com um baita muro no final, mas com várias saídas até esse muro. Essa combinação faz da Rua Adriano uma via híbrida. Algo entre uma rua sem saída e uma das avenidas mais movimentadas do mundo!

 

E foi justamente na Adriano que eu vi a primeira pessoa ressuscitar. Tá, eu já tinha ouvido falar de Jesus Cristo, mas ao vivo, em pele, osso e cicatrizes, só o Leandrinho, mais conhecido como Cavalo. Apelido dado pelas suas participações nas peladas.

 

Leandrinho era o cabeça de área clássico, aquele que não perdia uma viagem e não era de entregar a rapadura no meio de campo. Por ironia do destino, o nosso Cavalo foi protagonista de um atropelamento justamente enquanto buscava doces no Cosme e Damião.

 

O Chevette deu uma porrada tão grande no Cavalo que deve ter doce de mamão em forma de coração voando até hoje pelo Cosmos. Nunca se viu tanto cocô de rato espalhado pelo chão. (Para quem é de fora do Rio ou muito jovem, cocô de rato era uma pipoca feita com arroz. Acho que é isso!)

 

Já tínhamos doces suficientes para umas 3 ou 4 cáries e era humanamente impossível uma criança comer 6 quilos de maria-mole, suspiros, peitinho de moça, língua de sogra, bala 7 belo, paçoca, doce de leite e pé de moleque.

Mas a gente sempre queria mais! Até porque era uma oportunidade e tanto, todo mundo estar na rua. Não vou ser saudosista catatônico e dizer que no meu tempo “as crianças podiam brincar livres na rua”.

 

Podia não. O bicho já pegava naquelas bandas, mas pelo menos ainda podíamos comer doce feito sem açúcar demerara, leite com lactose e diet era só um refrigerante ruim pra caraca.

 

Voltando ao atropelamento que quase fez o Cavalo ir, o Chevette lançou o nosso cabeça de área pelos ares. Ele rodou algumas vezes antes de se estatelar no chão. Não lembro muito bem o que aconteceu, pois todos saíram correndo, provavelmente gritando pelo Aguinaldo, a entidade do Chamonix.

 

Aguina, como o todo Aguinaldo gente boa deve ser chamado, era o porteiro-vigia-segurança do Chamonix. E provavelmente foi ele que chamou o resgate para salvar o Leandrinho, torando-se porteiro-vigia-segurança-santo.

 

Quando o Cavalo voltou para o 202,já tínhamos acabado com todos os doces, mas isso não impediu a festa de boas-vindas.

Aliás, as festas eram um marca registrada no play do Chamonix. Acho que era a proximidade com Mackenzie, uma espécie de Barra Music #raiz da Zona Norte carioca.

 

Inclusive, o Mackenzie foi o primeiro e último baile de uma mineirinha, que não lembro o nome, mas sei da sua história: ela veio de Conselheiro Lafaiete para trabalhar lá em casa. Ela moraria com a gente. Falo no tempo verbal das possibilidades porque ela morou por apenas uma semana no Chamonix.

 

Em mais affair clássico dos prédios, condomínios, vilas, ponto de ônibus, feira de São Cristóvão, e qualquer outro lugar onde empregadas domésticas e porteiros possam se encontrar, a mineira fez amizade com o um dos subordinados do Aguina e aceitou o convite para baile do Mackenzie no sábado.

 

Deve ter sido uma noite inesquecível e com certeza longa, que começou na Rua Dias da Cruz, pegou a BR-040 e terminou em Minas Gerais, com meu pai levando a funcionária de volta para a casa.

 

Guardada as devidas proporções entre um clube e um ambiente familiar, as festas do play não ficavam pra trás dos bailes no Mackenzie. O som saía de um equipamento grandiosíssimo, com direito a dois espaços para fita (vulgo “dual deck” ) e era guardado, literalmente, a sete chaves em uma caixa de madeira presa na parede.

 

E aí meu amigo, tome Rosana, Beto Barbosa, Raça Negra, Grupo Raça, Jorge Bem Jor, Tim Maia, Leandro e Leonardo, Glorian Estefan, mais Beto Barbosa, Wando, A-ha, REM e o mais esperado por todos, Zé Paulo e o seu clássico Rala o pinto.

 

Bastava o “ Vai começar, vai começar, vai começar....” que invadíamos o salão para ralar o pinto no piso de taco sem ter a menor ideia do que estávamos fazendo!

 

E foi assim, sem ter ideia do que estávamos vivendo, que os campeonatos de botão eram feitos, com direito a artilharia, jogos ida-volta e contratações de craques.

 

Foi assim que todo o santo dia rolava a pelada! Antes ou depois das corridas de bike, do pique-esconde, da pipa ou de alguma brincadeira que as meninas tentavam interagir com a gente.

 

Teve gol do Caniggia em 90 e gol do Romário em 94. Aliás, o Tetra marca o início de uma festa no Brasil e o fim da minha carreira no ataque do Chamonix.

 

O lugar onde vivi até meus 12 anos. Onde criei valores que carrego comigo até hoje. E onde sempre volto quando bate um vento quente anunciando mais uma chuva de verão ou uma bola bate na parede.

 

Com certeza você também tem um Chamonix. Talvez ele não seja um prédio de sete ou oito andares, na Rua Adriano em algum lugar da Zona Norte do Rio.

 

Mas ele está lá, no fundinho do seu peito e mais vivo do que nunca nas suas saudades.

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